Na TELA ou na TEIA

Quando a jovem apaixonada desenha o perfil de seu amado na parede de seu quarto, à luz do fogo, apreende-se que o desenhar é um ato erótico. O desejo, que é fogo, toma, literalmente, a  imaginação pela mão e a convida a deleitar-se desenhando e desvelando os contornos do corpo desejado que se funde à sua própria sombra.
A mão que desenha o que deseja – porque tateia, porque treme e acaricia, porque percorre excitada, excitando-se e querendo tudo saber – parte de um “não saber” e concentra nessa aventura conceptiva toda a intenção e toda a expectativa do que somos como ser/corpo sensível, imaginativo e desejante. Esse desenhar é o avesso de um reencontro redundante e estéril com o que supostamente já era sabido, pensado, idealizado. Essa ação tem, portanto, a amplitude simbólica da poiesis, isto é, das ações poéticas que ultrapassam as condições dadas e concebem o que ainda não há, aquelas ações capazes de instaurar existências no mundo, nas quais não se aliena o fazer do pensar, do aprender, do saber. Tal condição indissociável é reflexiva, isto é, o desenhar “nos  designa mais do que aquilo que designamos”, em uma apropriação livre da reflexão bachelardiana (1).
Em outras palavras, o desenhar diz mais sobre nós mesmos – sobre o que pensamos ser/saber e ansiamos ser/saber – do que sobre o que foi ou será desenhado. Ou ainda, o desenhar, antes de tudo, nos expõe, nos move e nos transforma. Tal natureza designadora é válida tanto no âmbito individual, na experiência pessoal de cada um de nós, quanto no âmbito social e histórico, em nossa condição antropológica como espécie humana. É possível dizer que desenhamos movidos por uma libido, por um desejo “carnal” e metafísico de ter, ser e saber, no sentido de “se haver”, “s’avoir” ou “savoir”, em francês, o que diz ter a si mesmo e ter em si a coisa desenhada.

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